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quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

Meu conto de Natal - Um natal tal que qual

 

Um continho de Natal


      Amigos e amigas, conhecidos(os) e desconhecidas(os), curiosas(os), como vão??? Já estão no espírito natalino???

    Bom, eu não pretendia criar nenhum post sobre o Natal, porque eu sofro de uma espécie de depressão, uma melancolia constante nesta época (alguém mais sofre com isso??? Creio que sim), e opto por um certo recolhimento. Mas na noite passada tive um sonho, e quem me conhece um pouco mais sabe que os meus sonhos são as matérias-primas para muitos textos que escrevo. 

Eu sonhei com a Mamãe Noel!

       Brincadeira, mas eu sonhei com uma mulher idosa, com cabelos muito brancos e com uma bondade muito semelhante a do Papai Noel. No meu sonho, ela conversava com um homem com uma aparência muito pobre, e ela estregava uma chave para ele. Ele perguntou que chave era aquela e ela respondeu que era o presente de Natal dele: uma casa. Não lembro de mais nada.

    Mas aquilo fico na minha cabeça e peguei meu caderno de anotações. Escrevi tudo aquilo que eu lembrava, até que em certo momento eu pensei “esse sonho poderia dar uma boa história de Natal”. comecei a escrever à tarde e só terminei à noite, quando já era dia 18.

    E aqui está a história de José, Maria, Jeremias e Magdalena, e a história destes personagens acontece em uma noite de Natal. Você pode até imaginar que são personagens fictícios, mas assim como dizia um dos meus mestres (um desconhecido chamado Gabriel García Márquez), a minha ficção é baseada em histórias e pessoas reais.

    Assim como em “O pequeno vendedor de rosas” (https://www.amazon.com.br/pequeno-vendedor-rosas-Ricardo-Furlan-ebook/dp/B0DPHF299H), espero que meu conto desperte em você o espírito de solidariedade que muitas vezes (mas em alguns, nunca apareceu) só surge nas festas natalinas, mas que deveria ser algo recorrente em nossas vidas. Amar o próximo, como disse o grande aniversariante do dia 25.

Tenham um ótimo Natal, e nunca se esqueçam que o Menino Jesus é o único e verdadeiro, aquele que veio para unir e ensinar a amar.

Que a paz e a luz de Jesus entre nas vidas de todos aqueles que Nele creem e que leram as minhas palavras. 


Um Natal tal e qual.

     Com um sorriso triste, José despediu-se da família naquela véspera de Natal.

    — Feliz Natal, papai — disse o menino de nove anos, quase.

    — Feliz Natal, meu filho. Amanhã o pai tá aqui e a gente comemora, tá bem?

    — Tá, pai. Vai com Deus.

   — Tudo bem. Pai, não esquenta não, a gente vai ficar bem. É só um dia como qualquer outro — afirmou sua esposa,

    Maria chamava-o carinhosamente de pai. Ela também estava triste por passar mais uma noite de Natal sem a presença do marido. Ele só balançou a cabeça e saiu, já era noite e ele precisava caminhar 10 km até o condomínio Monte Santo, onde trabalhava como porteiro há dez anos.

     José recebia vale-transporte em dinheiro, fazia seu trajeto diário a pé todos os dias para economizar e assim complementar o salário mínimo que recebia. Ele tinha uma esposa adoentada e um filho pequeno para alimentar. Mas as varizes nas pernas estavam aumentando muito, era uma herança nada agradável que José recebeu de seu pai, Severino. José procurou atendimento da rede pública, mas o tratamento foi ineficaz e os medicamentos de que necessitava nunca estavam disponíveis para ele. Sem condições para o tratamento, José penava para dar o mínimo de conforto para sua família.

     E lá estava ele novamente, em mais uma noite solitária de 24 de dezembro. Ele estava sentado na portaria, olhando os poucos veículos que passavam pela rua e pensando nas famílias em festas, nos perus, nos “tios do pavê”. Ele tentava não pensar em sua família (e também era noite de Natal), quando um rapaz entrou no recinto.

    — Boa noite, Zé. Tudo bem? A vó tá te chamando lá no escritório.

    — Boa noite, seu Augusto. Tá tudo bem. Mas não posso sair daqui não.

    — Hahaha! Zé, pode parar de me chamar de “seu Augusto”. O senhor me conhece desde criança e eu te chamo de Zé desde sempre, tá mais do que na hora de me chamar de Guto. Pode ir lá que eu cuido aqui para o senhor, qualquer coisa, leva o rádio que eu te chamo. Beleza?

    José sorriu e respondeu:

    — Se o patrão diz, tá dito.

    — Patrão… fala sério, Zé! E vai lá que a vó tá te esperando.

    Um pouco desconfiado, José dirigiu-se até o pequeno escritório, que ficava localizado em uma sala anexa ao salão de festas do suntuoso condomínio residencial. Várias teorias passavam pela sua mente, mas a que mais o apavorava era aquela na qual ele receberia notícia da sua demissão.

    — Licença, dona Magdalena, a senhora me chamou? — anunciou José, com nervosismo.

    — Boa noite e feliz Natal, José. Sente aqui comigo, precisamos ter uma conversa séria.

    José ficou ainda mais desconfiado e seu coração batia de forma mais acelerada. Sentou-se, apreensivo.

    — Zé, quantos anos que você trabalha aqui na portaria?

    — Acho que uns 9, 10 anos, dona Magdalena.

    — Um bom tempo. E você está contente com o emprego?

    Ele gelou. — Sim, sim, dona Magdalena. Eu adoro, todo mundo me trata bem, o serviço é tranquilo.

    — Mas você ganha uma miséria e tem uma esposa e filha pra criar. Maria e Jeremias, não é?

    — Sim, mas a gente se vira, dona. É a vida.

    — E como é a vida lá no teu bairro? Vila Nova, não é?

    Ele gelou novamente. Quando ele já era morador de uma comunidade e estava desempregado, uma moça ofereceu-se para criar um Curriculum Vitae, mas disse que precisaria incluir um endereço fictício em um bairro considerado bom. Seria muito arriscado incluir o endereço de um barraco de favela, então no CV estava uma pequena mentira.

    — É, é bom sim.

    — E a padaria do Alfredo ainda existe? — Magdalena o encarava.

    José nunca soube da existência da padaria do Alfredo. — Sim, sim, o pão deles é muito bom, dona — mas ele ficou desconfortável com aquela mentira.

    — Certo, certo. E sua esposa, está bem? Soube que ela estava doente. E teu filho?

   — A Maria estava doente, ela tem uma anemia que vai e volta, mas agora tá bem. E o Jeremias tá bem, passou de ano, só tira nota boa.

    — Que bom saber, Zé.

  — Mas dona Magdalena, por que a senhora me chamou aqui? Se fosse só pra bater papo, não precisava me chamar aqui, era só ir lá na portaria. Sei que o Augusto tá lá, mas ele não precisa ficar lá todo esse tempo, é o meu trabalho.

    — Não esquenta com o Guto não, ele não vai sair de casa hoje. E não te chamei só pra bater papo com você, Zé. Era pra te contar uma mudança que faremos aqui. Grandes mudanças, na verdade.

    Aquilo que era uma especulação tornou-se uma certeza na mente do porteiro. Um pesadelo justamente na noite de Natal.

    — Dona Magdalena, por favor, não me manda embora, não me mande embora. Eu tenho um filho pequeno pra criar e a Maria tá sempre doente. Eu ganho pouco, mas é o nosso ganha-pão! — o desespero tomou conta dele.

    Magdalena, uma senhora idosa de cabelos tão brancos quanto as barbas do Papai Noel, levantou-se e foi até José. Ele nem teve tempo de se esquivar do abraço forte que recebeu da síndica.

    — Zé, e quem te disse que vai perder o emprego?

    — Ninguém, dona Magdalena, mas eu juro que depois de tudo isso que a senhora me falou, eu achei que já não tinha mais emprego. Mas agora não estou entendendo mais nada!

    — Não coloque o carro na frente dos bois, meu querido. Calma, toma um café, acabei de trazer lá de casa, já vou te explicar tudinho.

    — Tá bom, dona Magdalena — ele pegou uma caneca ornada com renas e então serviu-se de café.

    — Mais calmo, meu filho?

    — Sim.

    — Zé, ninguém gosta de mentiras, mas algumas são necessárias. Você mentiu, mas por uma boa causa: sobrevivência.

    Ele apenas balançou a cabeça, admitindo seu erro.

    — Eu sei que vocês não moram no Vila Nova, nunca moraram, mas sim na comunidade. Eu te entendo e nem penso nisso como uma mentira, uma traição.

    José perdeu o medo de Magdalena e justificou seus atos.

    — Perdão, dona Magdalena, mas eu tava em uma situação desesperadora. A Maria grávida e eu sem um quilo de farinha em casa, nem pra fazer um pirão…

    A confissão sincera do porteiro surtiu um efeito imediato na idosa. Ele levou um tempo para se recompor e continuar seu raciocínio.

    — Mas eu sei de muitas verdades terríveis que você nunca quis nos contar: que caminha 20 quilômetros todos os dias pra vir trabalhar, porque precisa do dinheiro do vale-transporte pra complementar a renda; que está sofrendo muito com as suas varizes e com a situação da Maria. E que você é analfabeto também.

    José não sabia que Magdalena sabia tanto da vida dele, mas teve certeza de que ela não sabia de tudo. Abaixou a cabeça e ficou em silêncio, até despejar palavras com a voz embargada.

    — Desculpa pelas mentiras, dona Magdalena.

   — Zé, você não precisa pedir desculpas para ninguém. Quem precisa pedir desculpas pra você é o mundo, que não te deu oportunidades como as que eu tive, as pessoas que moram aqui no condomínio. O mundo bateu demais em você, o mínimo que poderia ter feito era revidar um pouco.

    — Acho que a sinhora sabe que eu e a Maria viemos lá da roça, só com uma trouxinha de roupa debaixo do braço.

    — Sim, só não sei dos detalhes. Mas sei até que vocês moraram debaixo do viaduto por um tempão. Quer dizer, morar não é bem a palavra certa. Vocês sobreviveram.

    — Sobrevivemos. Se não fosse a mão de Deus naquela noite, lá debaixo do viaduto, eu não tava aqui falando com a senhora…

    Magdalena arregalou os olhos.

    — Meu amigo, pode desabafar comigo.

    — Vou contar uma coisa pra senhora, só porque a senhora é um pessoa muito boa. Teve uma noite lá debaixo do viaduto que passaram atirando, a gente nem sabia se era coisa de bandido, de polícia, e uma pessoa morreu. Tenho pesadelo até hoje com isso, dona…

    — Meu Deus...

   — Naquele dia eu resolvi que não dava mais pra ficar lá e peguei a Maria, acabamos na favela. Lá tem gente de todo tipo: geste de bem e trabalhadora, mas também muito bandido. E assim a gente vai levando.

    Magdalena estava com lágrimas nos olhos.

    — Meu Deus, Zé! Disso eu não sabia! Mas não quero te enrolar mais, preciso te contar. Senta e relaxa.

    — Dona Magdalena, já que a senhora insiste, vou beber mais um cafezinho.

    — Zé, já estamos planejando isso há um bom tempo, mas achamos que a melhor hora para te contar seria agora. Nós aqui do condomínio nos unimos por sua causa, pela sua família e resolvemos tomar algumas atitudes. Financiamos aquela casinha verde, que fica aqui perto, sabe? Aquela que estava caindo aos pedaços, mas reformamos e agora ela é sua, e você vai pagar o financiamento dela com o aumento salarial que os condôminos aprovaram. Não se preocupe, as prestações são bem baixas.

    Ele quase não acreditava no que ouvia.

    — Nunca imaginei isso, dona. É muita bondade, não sei nem como agradecer!

  — Calma, o pacote ainda não está completo. No mês que vem você vai em um especialista e resolvemos o problema de uma vez por todas. Vamos fazer um check-up na Maria também, e nós vamos arcar com todas as despesas. Sobre o Jeremias, pensamos em arcar com os custos de um curso de línguas para ele e, quando ele estiver em idade para estudar para os vestibulares, arcar com os custos do melhor cursinho pré-vestibular da cidade. Pode ser, meu caro José?

     José, o homem cuja humildade e benevolência obrigaram-no a levar uma vida de muitas dificuldades, estava em um estado de quase transe diante de tantas bençãos que estava prestes a aceitar. Apenas fez que sim com a cabeça e seus olhos estavam vermelhos de tanto segurar as lágrimas que insistiam em cair.

     Com um olhar carinhoso de uma mãe oferece a um filho, Magdalena respondeu:

    — Que bom Zé, mas temos uma única condição.

    — Condição?

    — Sim, condição. Vai fazer uma coisa por nós e pra você também: queremos você aceite receber aulas da professora Giuliane, porque ela quer ver você alfabetizado e eu também. Ela e eu queremos esta vitória pessoal sua, porque aprender a ler e escrever pode abrir muitas portas, você pode retomar seus estudos e com isso terá mais oportunidades na vida. Nós somos muito abençoados por termos você como porteiro, mas sabemos que dentro de você há uma pessoa que pode ser muito mais do que um porteiro.

    — Mas eu gosto de ser porteiro, dona Magdalena.

    — Zé, Zé, nosso pedido não é nenhum sacrifício pra você, não é?

    — Não é não, dona Magdalena. Eu não sei falar bem, a sinhora sabe que eu nunca estudei, mas minha finada mãezinha sempre ensinou que quem ajuda os outros já tem lugar guardado no céu, e o da senhora já está reservado. A dona Eulália falava pouco, mas tudo o que ela falava era ouro puro.

    — Obrigado, Zé. Mas eu ainda não sei se mereço. Só estamos tentando colocar um pouco de justiça nesse mundo injusto.

    — Merece muito, dona Magdalena, eu sei disso. A senhora não sabe, mas hoje é o melhor dia da minha vida, só posso agradecer a Deus por ter colocado uma pessoa como a senhora na minha vida, uma pessoa que me viu como gente.

    — Meu amigo José, essa velha aqui vem aqui te pedir desculpas por não ter te enxergado por tanto tempo.

    — Não precisa se desculpar por nada, dona Magda. Mas eu preciso voltar pro trabalho, eu ainda preciso trabalhar.

    — Claro, Zé. Saiba que você está aqui há tanto tempo devido ao seu profissionalismo. Mas antes eu preciso da sua opinião sobre uma mudança que queremos fazer no salão de festas, só vai levar um minutinho. Pode ser?

    — Que é isso, dona Magdalena, quem sou eu pra da opinião? Mas vamos lá.

    — Você é o José Carlos dos Santos Silva, nosso porteiro querido, meu amigo. Agora fica quieto e me acompanha até lá agora, a sua opinião será mais importante do que a de qualquer outra pessoa.

    Magdalena levantou-se e foi até a porta do salão de festas. Lá dentro dominava a escuridão.

    — Pode entrar primeiro e acender as luzes? Sou meio medrosa ainda.

    — Claro, não tem problemas. Pode passar as chaves que eu entro.

    Ele recebeu o molho de chaves, abriu a porta e procurou os interruptores. Quando acendeu as luzes, viu uma multidão amontoada em um canto e elas começaram a gritar: “Zé, Zé, Zé, Zé, Zé, Zé”.

    Jeremias veio correndo ao encontro do pai, ainda mais atônito.

    — Papai, feliz Natal! Olha aqui o que eu ganhei! — era uma mochila escolar enorme, recheada de livros novinhos em folha, além de um kit de ciências (e que era um sonho distante de Jeremias).

    — Que legal. Feliz Natal, meu filho — ele pegou o filho e o levantou. — A mamãe tá aqui?

    — Tá sim, olha ela lá falando com a tia Magdalena — Jeremias apontou para as duas mulheres, que conversavam animadamente. — Sabia que a mamãe ganhou uma máquina de costura novinha da tia?

    Na manhã do Natal, José manteve o mesmo ritual dos anos anteriores. Vestiu seu traje improvisado de Papai Noel e foi distribuir os doces e brinquedinhos para as crianças carentes da comunidade, comprados com o dinheiro do 13º salário (mas desta vez na companhia de Magdalena, Augusto, Giuliane e de outros moradores do condomínio). Enquanto caminhavam juntos pelas ruas enlameadas, a alegria inocente das crianças refletia nos olhos de todos.

    Ao final do dia, ao ver o sorriso no rosto de cada criança e o brilho de gratidão nos olhos dos amigos, o porteiro sentiu seu coração aquecido. Naquele momento, ele percebeu que o verdadeiro espírito do Natal não estava nos presentes, nas festas extravagantes, mas no amor e na união que compartilhavam. Com lágrimas de felicidade, ele acariciava os cabelos de seu filho no sofá velho, enquanto sentia o incomparável cheiro do bolo de laranja que Maria assava no forno do fogão carcomido pelo tempo.

    Ele teve uma certeza: estava no melhor lugar do universo.

 

 Ricardo Furlan, 18/12/2024.


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